Se bem é verdade que cada 8 de Março é único, este em especial guarda algumas peculiaridades que devemos tomar em conta ao nos pronunciarmos publicamente. Estamos lidando com a possibilidade de instalação de uma CPI no Congresso Nacional sobre a questão do aborto e a ação do Estado brasileiro neste campo. Estamos em meio ao desenvolvimento da crise mundial do sistema financeiro, que aponta para uma crise sistêmica do próprio modelo de desenvolvimento capitalista. E, de forma igualmente desafiadora, teremos que lidar com as primeiras ações dos novos governos municipais eleitos em 2008.
Para além desta conjuntura nacional e global, temos a diversidade de conjunturas locais, estaduais e problemáticas emergentes e persistentes no cotidiano das mulheres, como a violência, racista e patriarcal.
Uma olhada sobre esta conjuntura nos faz ter a certeza que o patriarcado, sistema de opressão e exploração dos homens sobre as mulheres, mantém-se firme e forte, mesmo que muito abalado pelo confronto da luta feminista.
Ainda é muito desigual a diferença salarial entre homens e mulheres. É grande o número de mulheres sem qualquer documentação civil e, portanto, com enormes bloqueios de acesso aos seus direitos individuais. As políticas públicas sociais que deveriam ser universais, mantêm-se em crescente precariedade: atenção a saúde pública com serviços muito ruins, educação fundamental gratuita de baixa qualidade, acesso a moradia, saneamento e segurança pública ainda muito deficitário. E a violência sexista não diminui. Ao contrário aumenta, em especial junto às mulheres jovens e adolescentes.
No mundo do trabalho as mulheres seguem sendo o setor mais explorado, seja pela dupla jornada de trabalho (uma jornada de trabalho para sua família e outra para o mercado de trabalho), seja por que somos empurradas para os trabalhos e ocupações precárias, sem proteção social e direitos trabalhistas e com menor remuneração. E, na medida em que a crise global da economia e do sistema capitalista avance para a periferia do sistema e nos atinja, teremos que enfrentar o agravamento desta situação de vida das mulheres.
Portanto, mais que nunca o feminismo faz sentido. Este é o instrumento da luta das mulheres por sua libertação das relações de opressão e exploração, por sua liberdade e autonomia individual e da luta das mulheres por direitos coletivos e por outra sociedade, outro mundo possível.
Mais que nunca é preciso que os movimentos feministas ocupem os espaços públicos no 8 de Março para levar nossa crítica à sociedade, nossas denúncias sobre a situação de nós mulheres e apresentar publicamente nossos protestos, nossas demandas e reivindicações.
Nossa visibilidade pública depende de nossa capacidade de radicalizar nossa luta. A visibilidade torna-se um desafio para o feminismo na medida que pretendemos incidir na arena da cultura política. Estar visíveis publicamente e por grande número de pessoas é por isto muito importante numa data como o 8 de março. Mas é muito difícil, pois lutamos contra forças mais potentes que nós e que, impedidas de nos calar, tentam nos tornar não visíveis.
Uma destas forças é o mercado. O 8 de março, como quase tudo mais, vem sendo crescentemente mercantilizado. A data entrou definitivamente na enorme lista de novos “produtos conceituais” (mercadoria). Esta é uma data política e de luta feminista que faz alguns anos passou a ser “vendida” e “consumida” pelo marketing. Transformando o 8 de março em mercadoria, usa-se esta data para propaganda de quase tudo atribuído pelo patriarcado ao feminino e às mulheres, ou seja, tudo que é relativo à casa, vida doméstica e ao sexo (desde que com homens e para usufruto dos homens).
Em nome de homenagear a nós mulheres assistiremos mais uma vez na próxima semana a uma enxurrada de propaganda de flores, jóias, roupa íntima, maquiagem, eletrodomésticos, óculos de praia, gêneros alimentícios. Restaurantes e motéis farão promoções, assim como supermercados e shoppings.
Mas não é apenas o mercado que ameaça a visibilidade da ação feminista e abafa a voz de nós mulheres neste 8 de Março. Os governos também, ainda que às vezes sem esta intenção.
Com a institucionalização das políticas para Mulheres, um novo problema emerge na arena da política: o 8 de Março passa a ser data preferida para exercício do proselitismo político por parte de alguns governos, sejam dos mais diversos matizes políticos, da direita à esquerda. No mais tradicional da velha política oligárquica alguns governos preparam suas homenagens às primeiras damas ou esposas de vereadores e deputados. Outros governos, com linha política social mais forte, organizam debates sobre problemas vividos pelas mulheres, ou as homenageiam, ou lançam mais alguma nova campanha contra a violência. E, para compensar cortes nos limitados fundos para fazer efetivas as políticas públicas, nada vem a calhar melhor que apoiar o movimento e em parceria com este, fazer o 8 de Março. É barato e rentável politicamente. Na perspectiva mais cínica de alguns e algumas governantes, tudo isto é claro, já contando como realização do Plano estadual ou municipal de políticas para mulheres.
Precisamos enfrentar juntas esta conjuntura, garantindo que ações próprias do movimento sejam realizadas, sem qualquer parceria com governos. Por isso, nós do FCM/AMB estamos em parceria com outros movimentos de mulheres e organizações mistas na construção no Ceará de um 8 de março autônomo, independente.
Juntas, reafirmamos: agradecemos as flores e homenagens sempre que sinceras, mas lembramos que 8 de Março é dia de luta – luta feminista!
*Fórum Cearense de Mulheres **Articulação de Mulheres Brasileiras
* Movimento de mulheres que reúne grupos em defesa dos direitos das mulheres. Atua desde 1994 em todo o Ceará.
** A AMB é uma articulação política não partidária, que potencializa a luta feminista das mulheres brasileiras nos planos nacional e internacional. A AMB tem sua ação orientada para a transformação social e a construção de uma sociedade democrática, tendo como referência a Plataforma Política Feminista (construída pelo movimento de mulheres do Brasil, em 2002). No presente contexto, a AMB se orienta por cinco prioridades: a mobilização pelo direito ao aborto legal e seguro, a ação pelo fim da violência contra as mulheres, o enfrentamento da política neoliberal, a organização do movimento e a luta contra o racismo.
Fonte: ANOTE