Com consumo de 50 mil litros de água por quilo, a produção de camarão será uma das grandes beneficiadas
Tatiana Merlino
Enviada especial a Aracati (CE)
CARANGUEJOS JÁ não nascem mais no sítio Cumbe, no município de Aracati, a 159 km de Fortaleza (CE). A região de manguezal, antes berço de mariscos, crustáceos e peixes, hoje é uma área degradada, onde tanques de carcinicultura abandonados tomam conta da paisagem. As 135 famílias que lá vivem e sobreviviam catando caranguejos foram surpreendidas em 1997, quando empresas de criação de camarão em cativeiro chegaram à região prometendo desenvolvimento e geração de emprego para a comunidade local.
Rapidamente, a maioria da população do sítio foi trabalhar nos viveiros. “Os que não foram tiveram sua área de trabalho afetada porque os caranguejos e sururus desapareceram”, afirma João Luís Joventino do Nascimento, morador do sítio e líder comunitário.
Impactos
Nada do que foi prometido pelos produtores de camarão aconteceu. Ao contrário. De acordo com Nascimento, entre as conseqüências causadas pela criação de camarão em cativeiro na região houve o desmatamento dos manguezais, poluição do rio e das gamboas, diminuição da pesca e empobrecimento da comunidade. “Em decorrência da utilização do metabissulfito de sódio - substância utilizada como conservante da coloração do camarão - que é despejado nos rios, durante três anos, não nasceu um caranguejo sequer”, conta ele. Em 2002, com a chegada de um pacote tecnológico com uma espécie exótica de camarão, importada da Indonésia, a produção teve problemas, e os camarões começaram a apresentar doenças. Aos poucos, a população impactada pela atividade começou a denunciar aos órgãos públicos as agressões ao meio ambiente e os impactos da produção para a comunidade.
Hoje, a maioria dos criadores abandonou a região e o maior empreendimento do Estado do Ceará é de propriedade do atual prefeito, Expedito Ferreira da Costa. A Comércio de Pescado Aracatiense Ltda., a Compescal, hoje mantém apenas quatro viveiros funcionando parcialmente. De herança, deixou dezenas de viveiros abandonados e terras degradadas.
Consumo de água
Além de trazer impactos socioambientais para as regiões de mangue, a produção de camarão em viveiro consome uma quantidade enorme de água. De acordo com estudos, para se criar um quilo de camarão, são necessários 50 mil litros de água, “quantidade equivalente de água é suficiente para abastecer três pessoas durante o ano inteiro”, compara Roberto Malvezzi, Gogó, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), citando dados da Agenda 21 da Água pela qual uma pessoa precisa de 40 litros de água por dia para sobreviver.
Ainda de acordo com a pesquisa “Avaliação da demanda hídrica da carcinicultura em águas interiores”, realizada pela professora Maria Cléa Brito de Figueiredo, entre as barragens Castanhão e Itaiçaba, no Ceará, a cultura de camarões consome cerca de 58.874 m³ por hectare. A atividade ganha - com folga - até da cultura do arroz, que é uma das que mais consomem água: o arroz atinge um volume de 33.000 m³ por hectare. No Rio Grande do Norte, onde também há grande produção de camarões, existem cerca de 10 mil hectares com projetos de carcinicultura, que chegam a demandar cerca de 8 m³/s de água, segundo o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), João Abner.
Propaganda enganosa
Críticos do projeto da transposição do rio São Francisco denunciam que, diferentemente do que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva propagandeia - que a obra irá matar a sede de 12 milhões de nordestinos -, os verdadeiros beneficiários do projeto serão as empresas de agronegócio: a irrigação da fruticultura para exportação, a carcinicultura e o pólo siderúrgico-portuário do porto do Pecém, em Fortaleza.
O próprio texto do governo diz que 70% das águas transpostas serão para agricultura (irrigação e carcinicultura), 26% para usos urbano-industriais e apenas 4% para abastecimento humano (o objetivo alegado pela propaganda do governo). “Dizer que a água da transposição é para consumo humano é uma falácia. A transposição será feita para o agronegócio, para a irrigação, para a carcinicultura”, afirma João Luís Joventino do Nascimento.
De acordo com Luciana Queiroz, assessora do Projeto Populações e Manguezais do Instituto Terramar, com a transposição, além dos viveiros existentes nos estados do Ceará e Rio Grande do Norte, haverá uma especulação de terra em torno das áreas próximas aos canais. “A tradição dessa cultura é a insustentabilidade e a migração para novas áreas. Com certeza, estão de olhos nos locais próximos aos canais, onde haverá facilidade de água e solos novos, já que com o tempo, os solos onde se cultiva camarão ficam imprestáveis”, afirma.
A chegada de doenças na produção, avalia a pesquisadora, é uma resposta do ecossistema, já que o problema é o cultivo de muitos organismos no mesmo espaço. A primeira doença que apareceu nos viveiros de camarão foi a mionecrose muscular. “O camarão fica amolecido, uma parte do corpo morre e a outra fica viva. Esse tipo de doença aparece em decorrência dessa grande produtividade num espaço pequeno”, explica Luciana.
Novo fôlego
Se em condições normais a utilização de água é enorme, “com as doenças a quantidade é maior ainda. Quando aparece uma doença, recircular a água é uma alternativa de manejo”, afirma Luciana. De acordo com ela, as águas da transposição dariam um novo fôlego aos produtores de camarão, “porque possibilitaria um recomeçar da atividade que hoje se encontra em declínio no Ceará”.
A atividade da carcinicultura existe no Brasil desde a década de 1970. No entanto, a produção era de baixa densidade, ou seja, com poucos organismos por metro quadrado. “Naquela época eram quatro organismos por metro quadrado, e hoje, com a ganância, são mais de 80 por metro quadrado”, diz Luciana. Em 2003, apenas o Estado do Ceará exportou 90 mil toneladas de camarão, e o Brasil tornou-se o sétimo produtor de camarão do mundo. “Isso reflete diretamente na quantidade de ração utilizada, na quantidade de água circulada e em efluentes contaminados. Além disso, o que os produtores não vêem é que isso não garante a sustentabilidade da atividade, porque as doenças chegam.
O Brasil é o sexto produtor mundial de camarão em cativeiro com 15 mil hectares de viveiros implantados, registrando crescimento superior a 300% de 1997 até 2003, segundo dados da Associação Brasileira dos Criadores de Camarão (ABCC). Os números da atividade levaram o país a se tornar o maior produtor da América Latina. Os Estados do Rio Grande do Norte e Ceará são os principais produtores. Apesar de o Ceará ocupar o segundo lugar na produção nacional, é o primeiro em produtividade, com 7.676 quilos por hectare/ano. No entanto, a ocorrência de doenças virais recentes tem preocupado os criadores, com perdas de até 80% registradas no rio Jaguaribe.
Para entender
Carcinicultura - Produção de camarão em viveiros instalados em manguezais, com graves impactos ambientais - já que muitas espécies precisam dessas áreas para se reproduzir. No Equador, organizações ambientais estimam que a criação de camarão já comprometeu metade das formações de mangue do país (150 mil hectares).
Fonte: Jornal Brasil de Fato